quinta-feira, 30 de abril de 2015

O sonho impossível

Não espero nada além do possível,
Porque o impossível, impossível se manterá. 
Não espero um resultado diferente,
Pois o que foi, o que é, sempre será.
Não espero uma mudança de planos,
De expectativas, de regras, de leis
Pois do jeito que está é como ficará.

Mas se não há esperanças, 
De algumas coisas como são mudar,
E sei que não há,
Os sonhos não podem faltar.

E sempre vou me permitir sonhar,
Em sonhos internos, sonhos só meus,
Sonhos que não devo revelar,
Porque só a mim podem interessar. 

E se uma vez deixar os sonhos,
Para além de mim voar,
Lá dentro do meu peito 
Vou eles engaiolar,
E feliz, sozinho, as vezes,
O seu canto escutar,
O cantar harmonioso do sonho 
Do sonho deliciosamente impossível.

Impossível no mundo real,
Insano no mundo dos homens,
Inculto no mundo da razão,
Mas lindo sonho
Habitando a minha ilusão. 


Marcos Borges
30/04/2015

José

Acho essa poesia fantástica porque exprime muito bem aquele sentimento de desespero que sentimos ao nos perceber incapazes de resolver uma questão. Obra prima do nosso maior poeta. Que agonia, José, que agonia, não saber o que fazer...

 José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio
e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade
In Poesias
Ed. José Olympio, 1942
© Graña Drummond

sábado, 25 de abril de 2015

Balada do louco

Posso dizer que a música abaixo é um dos meus hinos e a interpretação do Ney também é mágica. Apesar de parecer ser esse cara tão normal, lá no fundo tem um louco que nunca me deixou pasteurizar...

Para ouvir a música, vá até o Vagalume aqui



Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz

Quem é você?

Você
É mais do que sei
É mais que pensei
É mais que esperava

Você
É algo assim
É tudo pra mim
É como eu sonhava
Tim Maia

Quem é você que me ocupa,
Que me preocupa, que me perturba?

Quem é você que aqui está sem estar,
Que presente fica o tempo todo sem vir,
Que o perfume no ar ainda posso sentir?

Quem é você? Quem pode ser?
Seus olhos brilharão por mim ao me ver?
Suas mãos suarão geladas ao me perceber?
Seu coração baterá disparado ao minha voz ouvir?

Quem é você? Você existe?
Alguém que vai ao cinema só para minha mão pegar,
Alguém que come um chocolate só para um pedaço me dar,
Alguém que em meu peito quer deitar e sonhar?

Onde estará você à esta hora?
Em qual lugar posso lhe encontrar?
Divide comigo um vinho em uma mesa de bar?
Ou entre sorrisos e muito barulho quer dançar?
Eu poderia ao final para sua casa lhe levar,
Bastaria isso para com paz no coração ficar...

Quem é você? Afinal quem é?
Quem é essa grande mulher?
Como é o seu sorriso?
O que tem que eu preciso?
O que mais posso dizer
Além de quem é você?
Eu preciso saber!

Marcos A. F. Borges
25/04/2015

Metamorfose ambulante

Músicas também são poesias, né? E eu sou muito, muito fã de música. E o Raulzito, um cara inteligente e criativo como poucos, o que podemos falar? Essa aí eu acho fantástica, não só pela letra, mas pela interpretação brilhante desse cantor único que nos deixou tão cedo por causa da angústia que a bebida criou em seu coração...

O eterno Raul Seixas
Para ouvir, dá um pulo no Vagalume aqui


Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha velha velha velha velha
Opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

sábado, 18 de abril de 2015

Quero te provar

PoesiaQTProvar
Quero Te Provar

"Quero te provar
Sem medo e sem amor
Quero te provar
Cozida a vapor
Quero te provar"
Skank

Quero te provar,
Com desejo, com loucura, sem pudor,
Num momento, num instante,
Por todo um dia apaixonante,
Por toda a vida num minuto.

Quero o sabor doce de sua pele,
E o calor que transborda do seu perfume,
Tomá-la nos meus braços com força e suavidade,
Consumi-la como a um vício desejado
Sem a pretensão de ser amado
Apenas buscando satisfação.

E na confusão de pernas e braços,
Beijos e abraços, sexo a exaustão,
Perder o fôlego, morrer de cansaço,
Recuperá-lo em tempo e espaço
Para que possa retornar sem demora
Enquanto te possuo, você me explora,
Nesta batalha sem igual,
Que me transforma de confuso ser pretensamente inteligente,
Em completo e orgulhoso animal.

Marcos A.F. Borges
10/09/96

Ano novo




Quem quiser ter um novo ano a partir de primeiro de janeiro precisa pensar. Precisa deitar na cama e lembrar tudo que fez, e entender como seria melhor, e planejar como será no futuro. Precisa definir o que é e o que quer ser.

Precisa de um mergulho num mar agitado onde ondas levarão com elas as tensões. Olhar para as jovens bonitas em seus biquinis. Brincar com as crianças. Jogar algo com a mulher ou filhos, amigos ou parentes, com água pela cintura. Precisa se ver como parte do todo.

Revoltar-se com o que é errado. Em caso de conformismo exagerado, escutar um velho disco dos Titãs. Xingar políticos corruptos, senhoras reacionárias, religiosos inescrupulosos. Sentir aquele ódio bom, ódio de desaprovação, ódio irriquieto, ódio que nos faz lutar por mudanças. Precisa entender que tudo que é, é por sua causa também.

Amar muito, sentir muito. Sentir o respeito dos amigos, o amor da família, o abraço da mulher amada, o orgulho de si mesmo. Sentir-se forte e confiante. Mas também sentir-se amparado, em companhia de todos que lhe são caros. Precisa se sentir humano.

Definir, ver, entender, sentir. Conciliar racional com irracional. Somos animais humanos buscando esperança num novo ano. Que seja um ano de luz, no qual esperança e realidade se fundam numa única energia: a energia construtora de um mundo novo. Num novo ano.

Marcos A. F. Borges
29/12/95

Instantes

Sempre adorei instantes, desde que a li pela primeira vez. Havia uma lenda que era de  Jorge Luis Borges, mas parece que não é. O autor real ainda não descobri.


I N S T A N T E S


Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios.
Iria a mais lugares aonde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas
que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida:
claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso e' feita a vida,
só de momentos, não percas agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um para-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria voltar a andar descalço no começo da primavera e
continuaria assim até o fim de outono.
Daria mais voltas a minha rua,
contemplaria mais amanhaceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

Bem vindos!

Desde pequeno adorava ler poesias. E escrever versinhos bobos sobre tudo. Depois, quando teen, foram centenas de "músicas", músicas que só eu conheço e as vezes canto no banheiro quando mais ninguém está escutando...
Mas aí veio a faculdade, a vida adulta, os compromissos e por muito tempo me afastei desse mundo. Vez ou outra arriscava um verso tosco e idiota para uma namorada, mas este lado foi se perdendo, até porque tenho autocrítica...
Resolvi criar este blog para tentar recuperar esse meu lado. O lado mais humano, menos engenheiro, menos objetivo. Um lado muito eu que andava bem escondido.
Quero aqui divulgar poesias que me marcaram, que me fizeram pensar, pensamentos os mais variados. E um pouco de mim também.
Começo com o que já havia divulgado na minha página pessoal quando fazia mestrado. E depois vou incrementando. Sem pressa, sem pressão, sem urgência. E sem medo.
Não esperem nada profundamente literário, pois sei que sou um engenheiro. Não esperem erudições ou filosofias, porque eu sou um cara simples que adora falar, mas um cara que veio do povo e nunca quis ser diferente disso. Não faço isso buscando fama ou elogios, porque sei muito bem meu nível nesse mundo da escrita: sou e sempre serei um humilde amador sem técnica. Faço isso apenas porque acho que é um lado que quem gosta de mim pode conhecer. E quem gosta de ajudar, pode me dar dicas de como melhorar.
Bem vindos ao "Sem medo de poesia"!